quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

BURLÕES DE BANCOS AO ATAQUE

Rede burla bancos

PJ está na pista de uma fraude bancária que envolve milhões de euros e que é liderada por conhecidas figuras da sociedade portuguesa

A Polícia Judiciária desencadeou no final do ano passado uma série de buscas a residências e fez cerca de meia centena de detenções no âmbito de uma investigação que aponta para uma enorme fraude bancária envolvendo milhões de euros e conhecidas figuras do mundo político, empresarial e financeiro.
As diligências já efectuadas - que ainda decorrem -, levaram à prisão preventiva de pelo menos dez indivíduos, a maioria de etnia cigana, no Porto, em Lisboa e na região algarvia, mas as autoridades acreditam que se está apenas na presença de uma pequena amostra do que julgam ser um enorme “polvo” criminoso com tentáculos em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Angola, Moçambique e Brasil.
As investigações desta rede internacional de burlões está a ser feita em Portugal por investigadores da Unidade Nacional Contra-Terrorismo (UNCT) em colaboração com a Europol e a Interpol.
O esquema usado para enganar as instituições bancárias é, segundo fontes ligadas à investigação, aparentemente simples e ataca sobretudo as linhas de crédito. Assim, a troco de algum dinheiro, a rede recruta indivíduos que não tenham antecedentes criminais nem problemas com entidades bancárias reportados ao Banco de Portugal e que se encontrem em situação económica difícil ou marginalizados pela sociedade, nomeadamente sem-abrigo, toxicodependentes e alcoólicos.

O esquema
A seguir começa o processo para lesar os bancos. De acordo com as mesmas fontes policiais, são falsificados contratos de trabalho, recibos de ordenado, declarações de IRS, de Segurança Social, certificados de residência em nome dos indivíduos angariados (conta de água ou luz fictícia) e, após a abretura de uma conta bancária, a expensas da organização criminosa, são feitos pedidos de crédito para aquisição de habitação, obras, carros e outros bens. Quando os empréstimos são aprovados, o dinheiro é de imediato retirado das contas destes indivíduos, que nem com os cartões multibanco e documentos pessoais ficam, e colocado à disposição das cúpulas da rede criminosa, que depois faz a distribuição do dinheiro por todos os “colaboradores”.
“Quando as prestações deixam de ser pagas, os bancos executam as pessoas angariadas. O problema é que nunca as encontram, porque a única coisa verdadeira que existe é a identidade do cliente. Tudo o resto é forjado pelos criminosos. Mesmo que encontrem a pessoa facilmente descobrem que ela não pode pagar. Estão em causa milhões de euros e todas as instituições bancárias estão a ser lesadas com este tipo engenhoso de fraude”, explicou ao ASSERTIVO um dos investigadores deste processo.
“Isto só é possível com a participação de pessoas que ocupam altos cargos em bancos, nas Finanças, na Segurança Social e em empresas que lidam habitualmente com créditos à banca, nomeadamente do ramo imobiliário e de construção civil. São estas relações que estão ainda numa fase inicial de investigação”, acrescentou a fonte.
Ainda segundo disse o mesmo responsável policial, as autoridades já têm na sua posse elementos que apontam para o envolvimento no esquema criminoso de “conhecidas figuras da sociedade portuguesa, desde gestores de sociedades de advogados, empresários, políticos e, inclusive, indivíduos que estão ou estiveram fortemente ligadas ao mundo desportivo. Para o avanço das investigações têm sido fundamentais as confissões de alguns dos suspeitos já detidos e ouvidos judicialmente.
O Assertivo tentou obter mais pormenores sobre este verdadeiro “polvo” de burlões – estando em causa a prática, entre outros, de crimes como falsificação de documentos, favorecimento pessoal, corrupção, tráfico de influências e fraude bancária – mas quer os responsáveis da PJ quer do Ministério Público alegaram desconhecer o caso em concreto, lembrando que este tipo de investigações, a confirmarem-se, “estão sempre sujeitas ao segredo de justiça”.
Para já apenas foi presa a Arraia Miúda e os verdadeiros Tubarões prosseguem impunemente a actividade criminosa.

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